
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
O abismo entre a realidade da violência de gênero e os registros do Estado brasileiro ganhou contornos alarmantes com a divulgação do Relatório Anual de Feminicídios 2025. O estudo, realizado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL), revela que o país registrou 6.904 vítimas (entre casos consumados e tentados) no último ano — um número 38,8% superior ao que consta no Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça.
A discrepância de mais de 600 casos em relação aos dados governamentais expõe uma falha sistêmica na tipificação do crime. Enquanto o Ministério da Justiça contabilizou 1.548 mortes, o Lesfem identificou 2.149 assassinatos e 4.755 tentativas, evidenciando que a subnotificação ainda mascara a gravidade da crise.
O Perfil do Ciclo da Violência
Os dados do Lesfem traçam um mapa nítido — e trágico — de onde e como a violência ocorre:
- O Agressor Próximo: 75% dos crimes ocorreram no âmbito íntimo, cometidos por companheiros ou ex-parceiros.
- A “Casa Segura” é o Foco: 59% das agressões aconteceram na residência da vítima ou do casal.
- O Perfil das Vítimas: A idade mediana é de 33 anos. Em 2025, 101 mulheres estavam grávidas no momento da violência e 1.653 crianças ficaram órfãs.
- Letalidade: Quase metade dos crimes (48%) foi executada com armas brancas.
Por que os números não batem?
De acordo com a pesquisadora Daiane Bertasso, do Lesfem, a diferença reside na metodologia e na formação dos agentes públicos. O laboratório utiliza o Monitor de Feminicídios no Brasil (MFB), que cruza dados oficiais com fontes não estatais e notícias de jornal.
“As pesquisadoras têm um olhar mais acurado para identificar quando é uma tentativa de feminicídio. Na segurança pública, nem todos os municípios investem na formação específica para identificar esse crime”, explica Bertasso.
O Fator da Impunidade e a “Machosfera”
O relatório destaca que o feminicídio raramente é um evento isolado; ele é o desfecho de um ciclo de abusos que muitas vezes é ignorado pela sociedade e pelo próprio Estado. Mesmo com medidas protetivas, diversas mulheres acabaram mortas em 2025, sinalizando que a barreira jurídica atual é insuficiente diante da misoginia estrutural.
A pesquisa também faz um alerta sobre a ascensão da “machosfera” — redes digitais que propagam a masculinidade tóxica e o ódio às mulheres, influenciando desde adultos até o público jovem, o que retroalimenta a cultura da violência.