
Foto: Aleksandr Grechanyuk/Divulgação
A geopolítica europeia vive um momento de ruptura. Enquanto as principais potências do continente — lideradas por Reino Unido, França e Alemanha — consolidam um apoio estratégico à ofensiva de Washington e Israel contra o regime de Teerã, a Espanha de Pedro Sánchez emerge como a única voz dissonante de peso, denunciando a fragilização do direito internacional.
O Eixo do Apoio: Geopolítica e Barganha
O alinhamento europeu não é apenas retórico, mas operacional. O Reino Unido já disponibiliza suporte logístico a partir de suas bases no Oriente Médio, enquanto a França reforça sua presença naval na região com o envio de navios de guerra.
A mudança mais drástica, porém, vem de Berlim. Sob a liderança do chanceler Friedrich Merz, a Alemanha abandonou a tradicional cautela diplomática. Em visita recente à Casa Branca, Merz não apenas endossou o objetivo de “mudança de regime” em Teerã, como ofereceu cooperação para uma futura “recuperação econômica” do país persa pós-conflito.
Para especialistas, como o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva (UFRJ), esse alinhamento esconde uma tentativa de barganha com a administração de Donald Trump.
“A Europa tenta provar sua utilidade para evitar que os EUA desmantelem a Otan ou avancem sobre interesses territoriais e econômicos europeus”, pontua o especialista.
O “Fator Sánchez” e a Memória do Iraque
Na contramão de seus vizinhos, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, tem sido enfático ao classificar a ofensiva como uma violação das normas da ONU. Relembrando o desastre humanitário e energético da Guerra do Iraque, Sánchez mantém a posição de que a paz não pode ser alcançada atropelando o direito internacional.
Mesmo sob ameaças de sanções comerciais por parte de Trump, Madri negou categoricamente qualquer recuo, tornando-se o ponto de fricção dentro da União Europeia.
Logística e Repressão: A posição de Portugal e Itália
Outros atores regionais adotaram posturas intermediárias, mas favoráveis ao bloco ocidental:
- Portugal: O governo de Luís Montenegro autorizou o uso das bases militares nos Açores pelos EUA, embora tente distanciar-se do protagonismo nos ataques diretos.
- Itália: Foca sua retórica na condenação da repressão interna do governo iraniano contra civis, enquanto costura acordos de defesa com as monarquias do Golfo, adversárias históricas de Teerã.
Risco Global no Estreito de Ormuz
A resposta iraniana ao cerco europeu foi imediata e atinge o coração da economia global. A Guarda Revolucionária do Irã já emitiu alertas de que navios de nações que apoiam a agressão — incluindo os europeus — poderão ser impedidos de transitar pelo Estreito de Ormuz. O bloqueio dessa via, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, pode lançar a economia europeia em uma crise inflacionária sem precedentes.