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Xadrez dos Gramados: Nova Ferramenta da USP Decifra o Caos Tático e Prevê Momentos Críticos no Futebol

 Foto: Mike/Pexels

O futebol sempre resistiu às tentativas simplistas de rotulagem. Enquanto analistas tradicionais se apegam a estatísticas isoladas — como posse de bola, desarmes ou quilômetros percorridos —, o jogo real acontece no espaço intangível das relações humanas: na resposta de uma defesa a um drible, no fechamento de um espaço ou na transição veloz para o ataque.

Para decifrar essa complexidade, uma pesquisa inovadora da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP desenvolveu um modelo que trata o futebol não como uma soma de números, mas como um sistema dinâmico categórico. O estudo, conduzido pelo pesquisador Rene Drezner sob a orientação de Luiz Eduardo Pinto Basto Tourinho Dantas, promete transformar a análise de desempenho ao mapear a interação dos 22 jogadores simultaneamente.


O Tabuleiro de 34 Estados: O Conceito de Metaestabilidade

Em vez de enxergar o jogo como um fluxo contínuo e imprevisível, o novo modelo reduz todas as interações possíveis de uma partida a um “tabuleiro” de 34 estados de configuração tática.

A pesquisa se apoia no conceito de metaestabilidade — a ideia de que o futebol não possui um equilíbrio estático, mas sim flutua constantemente entre padrões temporariamente estáveis. Cada um dos 34 estados funciona como uma “fotografia” tática única, definida pela combinação de três fatores cruciais:

  1. A zona de progressão da bola;
  2. A pressão do adversário sobre o portador da bola;
  3. A proximidade de uma condição de finalização.

“Seria como reduzir todas as possibilidades de interação do jogo de futebol em apenas 34 – como se fosse o tabuleiro de um jogo – e analisar a evolução a partir das movimentações deste tabuleiro”, explicou Drezner ao Jornal da USP.

Além dos estados, o pesquisador criou a Escala de Equilíbrio na Interação entre as Equipes, uma ferramenta ordinal que qualifica o grau de sucesso ou desequilíbrio de cada momento, identificando quem está em vantagem (o time com ou sem a posse da bola).


Prova de Fogo: A Final da Champions League

Para testar a eficácia da ferramenta, o modelo foi aplicado de forma sequencial na final da Liga dos Campeões da Europa de 2023/24, onde o Real Madrid venceu o Borussia Dortmund por 2 a 0. O mapeamento dos fluxos de transição trouxe à tona a anatomia tática do confronto:

EquipeComportamento Tático Detectado pelo Modelo
Real MadridManteve a maior parte do jogo em regiões de equilíbrio, mas atingiu o ápice de desequilíbrio a seu favor no quinto período da partida — momento exato em que os dois gols foram marcados.
Borussia DortmundTeve seu melhor momento no segundo período, mas desmoronou no quinto período, registrando o pior desempenho com a posse de bola e acumulando transições em zonas favoráveis ao rival.

O modelo também foi capaz de flagrar “ajustes invisíveis”. No início do segundo tempo, a ferramenta detectou uma redução drástica dos estados de jogo contra a marcação adiantada do Dortmund, sinalizando uma mudança imediata na estratégia defensiva do técnico Carlo Ancelotti, do Real Madrid.


O Futuro da Análise de Desempenho

O grande trunfo do estudo de Drezner, que já está disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP, é o seu poder descritivo e preditivo. No futebol profissional, a ferramenta abre duas portas fundamentais para comissões técnicas:

  • Identificação de Estados-Chave: Isolar e quantificar os momentos exatos em que a equipe cria condições vantajosas de finalização.
  • Mapeamento de Padrões Geradores: Descobrir quais comportamentos em zonas intermediárias do campo são os verdadeiros gatilhos para desestabilizar a defesa adversária.

Ao traduzir o caos do gramado em um refinado jogo de xadrez computacional, a ciência brasileira dá um passo largo para que técnicos e analistas não apenas assistam ao jogo, mas antecipem o próximo xeque-mate.

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