
Foto: Extraída da Tese
Estudo da USP revela que combinar atividade aeróbica com tarefas cognitivas pode “reprogramar” o cérebro de pacientes, melhorando a agilidade mental e a segurança ao caminhar.
O Parkinson é conhecido por roubar o que temos de mais instintivo: a capacidade de andar sem pensar. Para quem convive com a doença — que atinge mais de 500 mil brasileiros — o simples ato de caminhar deixa de ser automático e passa a exigir um esforço consciente e exaustivo. No entanto, uma pesquisa recente da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP traz um novo fôlego para o tratamento: a união de movimentos físicos com desafios intelectuais.
O estudo, conduzido pelo pesquisador Jumes Leopoldino Oliveira Lira sob orientação do professor Carlos Ugrinowitsch, investigou como sessões curtas de exercícios aeróbicos, tarefas cognitivas ou a combinação de ambos podem impactar a vida dos pacientes.
O Cérebro “Sobrecarregado”
Em uma pessoa saudável, o caminhar é gerenciado por estruturas subcorticais de forma automática. No Parkinson, a degeneração dos núcleos da base obriga o cérebro a usar o córtex pré-frontal (área do raciocínio e planejamento) para controlar os passos.
Essa “gambiarra” neurológica gera uma sobrecarga cognitiva. É como se o paciente estivesse usando toda a memória do computador apenas para manter o sistema operacional funcionando, sobrando pouco espaço para outras tarefas. O resultado? Lentidão, perda de equilíbrio e um risco elevado de quedas.
A Pesquisa: O Teste da “Tarefa Dupla”
Para testar novas saídas, 20 voluntários participaram de intervenções no Laboratório de Biomecânica da EEFE. Eles foram submetidos a três cenários diferentes em sessões de 30 minutos:
- Apenas exercício: Uso de uma minibicicleta ergométrica.
- Apenas estímulo cognitivo: Testes de memória, cálculos e sequências de cores.
- Tarefa Combinada: Exercício físico simultâneo aos desafios mentais.
Resultados: Mais Agilidade e Menos Impulsividade
Embora a “automaticidade” total do andar não tenha mudado drasticamente em uma única sessão, os pesquisadores observaram ganhos fundamentais na flexibilidade mental e no controle inibitório (a capacidade de suprimir impulsos e focar no que importa).
- Estabilização do passo: Houve uma tendência de maior regularidade no tempo de cada passo, sugerindo que o exercício ajuda a “ritmar” o corpo.
- Eficiência Executiva: A combinação das tarefas mostrou que o cérebro pode ser treinado para lidar melhor com a demanda dupla, o que é crucial para evitar quedas no dia a dia, como ao atravessar uma rua conversando ou carregando sacolas.
O Futuro da Reabilitação
A tese de doutorado de Lira reforça que o tratamento do Parkinson deve ir além dos remédios. A medicação é vital, mas não devolve a automaticidade motora sozinha. O engajamento em atividades que desafiem o corpo e a mente simultaneamente aparece como uma ferramenta poderosa para devolver autonomia aos pacientes.
Este estudo abre as portas para programas de reabilitação mais dinâmicos e personalizados, provando que, para o paciente com Parkinson, manter o corpo em movimento é bom, mas manter o cérebro “pedalando” junto é ainda melhor.
Nota: A pesquisa completa, intitulada “Efeitos agudos do exercício aeróbico com e sem tarefas cognitivas na automaticidade do andar…”, pode ser consultada na íntegra no Banco de Teses da USP.