
Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil
O diagnóstico de diabetes no Brasil vai muito além dos cuidados com a alimentação e a medicação; ele cobra um preço alto do bem-estar mental dos pacientes. É o que aponta uma pesquisa global realizada pelo Global Wellness Institute (GWI), em parceria com a Roche Diagnóstica. O estudo revela que 70% dos brasileiros com diabetes afirmam que a doença afeta significativamente seu equilíbrio emocional, enquanto 78% relatam ansiedade crônica em relação ao futuro.
Diante desse cenário de incertezas, a busca por previsibilidade tem feito os pacientes defenderem a incorporação de tecnologias avançadas no tratamento cotidiano, como os sensores de monitoramento contínuo e ferramentas de inteligência artificial.
O Peso do Cotidiano e a Falta de Sono
A rotina de quem convive com a condição é marcada por limitações invisíveis, mas persistentes. Segundo o levantamento, as oscilações nos níveis de açúcar no sangue geram desdobramentos práticos e físicos:
- Restrição de mobilidade: 56% dos entrevistados sentem que a doença limita a capacidade de passar o dia longe de casa.
- Rotina afetada: 46% enfrentam sérias dificuldades em situações comuns, como reuniões longas ou engarrafamentos no trânsito.
- Noites maldormidas: 55% dos pacientes relatam não acordar descansados devido às variações glicêmicas que ocorrem durante o sono.
Atualmente, o modelo de cuidado tradicional não tem sido suficiente: apenas 35% dos brasileiros se dizem muito confiantes no gerenciamento da própria saúde.
Inteligência Artificial e Sensores: O Desejo por Previsibilidade
Para mudar essa realidade, a comunidade de pacientes aposta na tecnologia de ponta. Cerca de 44% dos consultados acreditam que ferramentas inteligentes capazes de prever alterações na glicose deveriam ser priorizadas. Entre os usuários de medidores tradicionais (as famosas picadas no dedo), 46% defendem a transição para os Sensores de Monitoramento Contínuo de Glicose (CGM).
O grande diferencial esperado é o uso da Inteligência Artificial (IA) para antecipar cenários. Essa funcionalidade é desejada por 53% dos entrevistados gerais e salta para 68% entre os pacientes com Diabetes Tipo 1 (DM1). Sabendo a tendência da glicemia para as próximas horas, 56% sentiriam maior controle sobre a doença e 48% afirmam que a redução de surpresas aumentaria diretamente sua qualidade de vida.
“O sensor permite à pessoa entender precocemente o que vai acontecer nas próximas horas. Ela descobre se a glicose vai subir ou baixar daqui a meia hora e pode tomar uma atitude preventiva”, explica o endocrinologista André Vianna, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).
Economia para o Bolso e para o Estado
Além do ganho evidente na qualidade de vida e na redução do estresse diário, o uso em larga escala dessas tecnologias traz vantagens econômicas. Segundo Vianna, o monitoramento contínuo diminui drasticamente as complicações graves.
“Essas pessoas vão acabar indo menos para o hospital, vão se internar menos. Isso, além de melhorar a saúde, diminui o custo do tratamento para o sistema público”, pontua o médico.
No Diabetes Tipo 1 (doença crônica e hereditária em que o pâncreas para de produzir insulina), os benefícios dos sensores aparecem já no primeiro dia de uso. No Tipo 2, os reflexos positivos são consolidados a longo prazo.
O Cenário Nacional e o Impasse no SUS
Embora o Brasil ocupe a 6ª posição mundial em prevalência de diabetes — com 16,6 milhões de adultos diagnosticados, segundo o Atlas Global do Diabetes 2025 da IDF —, o acesso às inovações tecnológicas ainda é desigual. No país, o comércio desses sensores está concentrado no mercado privado e atende majoritariamente a população de maior poder aquisitivo, diferentemente de países como França, Reino Unido e Estados Unidos, onde a distribuição é subsidiada por sistemas públicos ou seguros de saúde.
No âmbito público, o cenário enfrenta barreiras burocráticas:
- Negativa do Ministério: Em janeiro de 2025, o Ministério da Saúde publicou uma portaria decidindo pela não incorporação do monitoramento contínuo de glicose por escaneamento intermitente no Sistema Único de Saúde (SUS).
- Ofensiva Legislativa: Em resposta ao apelo dos pacientes, a Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 323/25, que visa obrigar o SUS a fornecer gratuitamente os dispositivos de escaneamento.
Para que a proposta vire lei, o texto ainda precisa passar pelas comissões de Finanças e Tributação, e de Constituição e Justiça e de Cidadania, além de votação no Senado. Até o momento, o Ministério da Saúde não se pronunciou sobre os novos desdobramentos.