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Cidades hostis: Defeitos em calçadas espalham medo de quedas e isolam 42% dos idosos no Brasil

Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil

O envelhecimento da população brasileira avança a passos largos, mas a infraestrutura das cidades parece ter ficado para trás. Mais do que a ausência de doenças, o direito de envelhecer com dignidade esbarra hoje em calçadas esburacadas e vias públicas mal conservadas. É o que revela a terceira onda do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos (Elsi-Brasil), realizado em conjunto pela Fiocruz e pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

De acordo com o relatório baseado em dados coletados entre 2023 e 2024, 42% dos idosos que vivem em áreas urbanas têm medo de sofrer quedas devido aos defeitos nos passeios próximos às suas residências. O temor afeta de forma desigual o gênero e a faixa etária, tornando-se um fator gritante de isolamento social e perda de autonomia.

O peso do gênero e da idade no medo de caminhar

O receio de se machucar na rua é expressivamente maior entre as mulheres: 50,5% delas relatam medo de cair, em comparação com 31,9% dos homens.

À medida que o corpo envelhece, a sensação de vulnerabilidade diante do espaço urbano também se acentua de forma drástica:

  • 60 a 69 anos: 35,2% sentem medo.
  • 70 a 79 anos: O índice sobe para 47,1%.
  • 80 anos ou mais: Saltos alarmantes para 63,1%.

Para Maria Fernanda Lima-Costa, coordenadora do Elsi-Brasil, as cidades brasileiras precisam urgentemente de políticas de planejamento urbano inclusivo. “As prioridades devem incluir acessibilidade, segurança viária, mobilidade e adaptação”, reforça a pesquisadora. Além da infraestrutura física, a violência urbana também encurta os passos dessa população: 12,1% dos idosos (cerca de 3,8 milhões de pessoas) consideram sua vizinhança muito insegura, o que agrava quadros de ansiedade e restringe a circulação social.


Hipertensão silenciosa atinge 11 milhões na terceira idade

O estudo também fez um raio-X das condições clínicas dos idosos e acendeu um alerta para a hipertensão arterial sistêmica. Através de aferições domiciliares, os pesquisadores constataram que 34,4% dos idosos apresentam pressão igual ou superior a 14 por 9.

Isso significa que aproximadamente 11 milhões de brasileiros convivem com uma doença frequentemente assintomática e que exige acompanhamento médico rigoroso para evitar desfechos graves, tais como:

  • Infartos e Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC);
  • Insuficiência renal;
  • Demência vascular.

Assim como o medo das calçadas, a hipertensão escala com o tempo. Se entre os 60 e 69 anos ela atinge 31,9% do grupo, na faixa acima dos 80 anos o índice chega a 40,1%, sem distinção significativa entre homens e mulheres.


A crise invisível do cuidado domiciliar

A perda da capacidade funcional é outra realidade dura exposta pelo Elsi-Brasil. Um em cada cinco idosos no país (20,4%, ou 6,5 milhões de pessoas) possui limitações para realizar atividades básicas do cotidiano, como tomar banho, vestir-se, comer, ir ao banheiro ou levantar da cama. No grupo com mais de 80 anos, essa dependência dispara para 44,2%.

O dado mais preocupante, contudo, reside na fragilidade da rede de apoio familiar e social:

Indicador de Assistência ao Idoso LimitadoPercentual
Idosos com limitações diárias que recebem algum tipo de ajuda37,9%
Cuidadores que relataram ter recebido qualquer tipo de treinamento5,8%

O cenário evidencia um apagão de políticas públicas estruturadas para amparar cuidadores familiares, que hoje assumem uma carga exaustiva sem o devido preparo técnico ou suporte do Estado.


SUS: A âncora da população idosa

Diante de tantas vulnerabilidades socioeconômicas e de saúde, o Sistema Único de Saúde (SUS) se consolida como a principal — e muitas vezes única — rede de proteção. Dois terços dos idosos brasileiros dependem exclusivamente do sistema público.

A Estratégia Saúde da Família (ESF) cumpre um papel primordial nesse ecossistema, cobrindo 69,2% dos idosos (o equivalente a 22,2 milhões de pessoas). De acordo com a coordenação da pesquisa, fortalecer o SUS e a atenção primária é o único caminho viável para promover um envelhecimento saudável em um país marcado por desigualdades tão profundas.

Dados abertos para o futuro

Para dar transparência e subsidiar novas políticas, o Elsi-Brasil lançou um novo painel digital de indicadores. A plataforma de acesso público cruza dados coletados desde a primeira onda da pesquisa (2015) até o período recente (2024). A ferramenta está alinhada à Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030) da ONU, que defende que ter saúde na velhice vai muito além de não estar doente: exige autonomia, segurança urbana e bem-estar ambiental.

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