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Uma nova abordagem não invasiva e livre de remédios combina tecnologias de fotobiomodulação e ondas sonoras, trazendo alívio seguro para o incômodo que afeta até 36% das crianças.
A busca por soluções para as misteriosas e desconfortáveis “dores de crescimento” na infância ganhou um capítulo promissor graças à ciência brasileira. Pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da USP testaram, de forma inédita, a combinação de laser de baixa intensidade e ultrassom terapêutico para o manejo dessa condição. Os resultados preliminares, publicados no prestigiado Journal of Biophotonics, acendem uma luz de esperança para pais e pediatras ao demonstrar segurança absoluta e forte potencial de eficácia.
A dor de crescimento é um quadro benigno que afeta entre 2,6% e 36,9% das crianças de 3 a 10 anos. Apesar do nome popular, ela não tem ligação direta com o estiramento dos ossos. Manifesta-se como dores predominantemente noturnas nas pernas que, embora passageiras e sem sequelas a longo prazo, prejudicam severamente a qualidade do sono e a rotina familiar.
Até hoje, o arsenal clínico contra o problema limitava-se a massagens, alongamentos e ao uso recorrente de analgésicos — uma preocupação constante para os médicos devido aos efeitos colaterais do uso contínuo de fármacos na infância.
Como funciona a nova terapia?
A inovação do estudo reside na sinergia de duas tecnologias consagradas na fisioterapia e na medicina regenerativa, mas redesenhadas para o público pediátrico:
- Laser de baixa intensidade: Atua no nível celular, estimulando a produção de energia (ATP), acelerando a regeneração dos tecidos e combatendo processos inflamatórios.
- Ultrassom terapêutico: Promove microvibrações físicas que aumentam a permeabilidade das células e otimizam a circulação sanguínea local, gerando um efeito analgésico.
“A proposta de usar uma abordagem combinada, não invasiva e com baixo risco de efeitos adversos se alinha a uma tendência crescente na medicina, que é o uso de tecnologias que promovam o equilíbrio do organismo”, destaca Antonio Eduardo de Aquino Junior, pesquisador do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) e coautor do estudo.
Estratégia inovadora e segura nos pés e mãos
Para tirar a prova da eficácia, os cientistas conduziram um estudo piloto com nove crianças diagnosticadas. Metade recebeu o tratamento ativo e a outra metade passou por um procedimento placebo (onde o aparelho ficava desligado sem o conhecimento dos pacientes).
O grande trunfo metodológico foi o local da aplicação. A sessão única de seis minutos foi feita exclusivamente nas palmas das mãos e plantas dos pés.
Por que essas regiões?
- Altamente vascularizadas: Garantem que o estímulo circule eficientemente pelo corpo.
- Longe das placas de crescimento ósseo: Elimina qualquer risco de interferência no desenvolvimento esquelético natural da criança.
Resultados: Noites tranquilas e menos remédios
O monitoramento ao longo de 30 dias trouxe dados animadores. Embora o efeito placebo tenha se mostrado presente (comum em testes de dor), o grupo que recebeu a terapia ativa apresentou uma redução drasticamente maior da dor, especialmente logo na primeira semana após a aplicação.
Mais do que os números, os relatos qualitativos dos pais desenharam o real impacto da pesquisa:
- Melhora expressiva na qualidade do sono das crianças.
- Desaparecimento das crises de choro noturnas.
- Maior disposição para brincar e ir à escola.
- Redução drástica ou interrupção do uso de analgésicos via oral.
O ponto mais celebrado pela equipe foi a ausência total de efeitos colaterais. Nenhuma criança apresentou lesões na pele, queixas de desconforto ou alterações de mobilidade.
Próximos passos na linha de pesquisa
Apesar do entusiasmo, a comunidade científica prega a cautela. Por se tratar de um estudo piloto com amostragem reduzida, os dados funcionam como uma “prova de conceito” crucial, mas ainda não transformam a técnica em um tratamento de prateleira nos consultórios.
“Trata-se de um estudo inicial. Os resultados mostraram que a técnica é segura e sugerem um efeito positivo, mas ainda não permitem concluir com certeza absoluta que o tratamento é eficaz para todos”, pondera Esther Angelica Luiz Ferreira, pesquisadora da UFSCar e primeira autora do artigo.
O caminho agora está aberto para ensaios clínicos robustos, com centenas de crianças e acompanhamento a longo prazo. Se os próximos testes confirmarem o padrão atual, a ciência brasileira terá entregue à pediatria mundial uma chave de ouro para devolver o sono e o bem-estar à infância de milhares de crianças, sem a necessidade de uma única gota de remédio.