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Uma descoberta liderada por cientistas brasileiros pode transformar o cenário do tratamento da Leucemia Mieloide Aguda (LMA), um dos tipos mais agressivos e de rápida evolução de câncer no sangue. O estudo, que ganhou destaque na capa da prestigiada revista científica Translational Cancer Research, propõe uma estratégia inédita para devolver a eficácia ao principal quimioterápico utilizado contra a doença.
Atualmente, o venetoclax representa o que há de mais moderno no combate à LMA. No entanto, médicos enfrentam um obstáculo clínico recorrente: após cerca de dois anos de tratamento, uma parcela significativa de pacientes desenvolve resistência ao medicamento, fazendo com que o câncer volte a avançar.
O Calcanhar de Aquiles do Tumor: O Metabolismo Celular
A nova abordagem foca na reprogramação metabólica das células tumorais. Para sobreviver ao bombardeio dos quimioterápicos, as células cancerígenas alteram a forma como produzem e consomem energia.
O grupo de pesquisa, liderado pelo professor João Agostinho Machado Neto, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, identificou que uma enzima específica chamada Nampt (nicotinamida fosforibosiltransferase) é a grande chave desse mecanismo de sobrevivência. Ao bloquear a Nampt, o “combustível” do tumor é cortado, tornando as células cancerosas vulneráveis novamente.
“O artigo teve o intuito de mostrar que estamos convergindo para um conhecimento que merece um olhar mais cuidadoso e crítico, porque pode ter aplicação clínica em breve”, destaca Machado Neto.
Convergência Global e o Papel de um Remédio para Diabetes
O grande diferencial do achado é que ele une peças de um quebra-cabeça investigado por laboratórios de três países, que chegaram de forma independente à mesma conclusão:
- Brasil (USP): Demonstrou em laboratório que inibidores da enzima Nampt revertem a resistência adquirida ao venetoclax.
- Holanda (Groningen): Testou células com resistência natural e descobriu que a metformina — um medicamento amplamente utilizado há mais de 50 anos para o diabetes tipo 2 — ressensibiliza o tumor, efeito que se potencializa quando combinada a novos fármacos.
- Estados Unidos (Texas): Provou que o bloqueio da Nampt também funciona contra a resistência à quimioterapia padrão tradicional (citarabina).
Do Laboratório para os Pacientes: O Que Vem a Seguir?
O desafio atual da comunidade médica é transpor esses resultados dos tubos de ensaio para a rotina dos hospitais. Uma das grandes vantagens dessa estratégia é o reposicionamento de fármacos já existentes.
| Medicamento | Situação Atual | Vantagem Estratégica |
| Metformina | Já aprovada para diabetes | Aplicação imediata; perfil de segurança amplamente conhecido por décadas. |
| Inibidores de Nampt | Em fase de testes de nova geração | Potencial de eficácia ainda maior e mais direcionado contra o tumor. |
No Brasil, os testes clínicos em humanos já começaram. Um grupo de pesquisa deu início a um ensaio utilizando a metformina em pacientes com LMA que pararam de responder à quimioterapia convencional. Se os resultados se confirmarem, a descoberta poderá devolver a esperança e dar uma segunda chance de tratamento a milhares de pacientes oncológicos.