
Foto: Reprodução UEM
O Paraná deu um salto significativo no entendimento de sua biodiversidade. Após um hiato de 16 anos sem revisões oficiais, uma nova pesquisa atualizou a lista de quirópteros (morcegos) que habitam o estado. O levantamento identificou 71 espécies registradas, trazendo oito novos registros para o catálogo paranaense. No entanto, o avanço científico divide espaço com a preocupação: o estudo também revelou um “apagão” de dados em áreas de preservação cruciais e o desaparecimento visual de espécies nos últimos anos.
A pesquisa foi liderada pela bióloga Nádia Sabchuk, doutora em Biologia Comparada pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e professora do Instituto Federal do Paraná (IFPR) – Campus Londrina, em parceria com uma rede de pesquisadores.
O Raio-X da Biodiversidade e os “Vazios” Científicos
Mais do que uma simples contagem, a atualização do catálogo funciona como um termômetro para políticas de conservação ambiental. Segundo os pesquisadores, o estado abriga hoje pelo menos uma espécie de morcego oficialmente ameaçada de extinção, além de várias outras classificadas como raras.
O estudo também desenhou um mapa da produção científica no Paraná, revelando um contraste incômodo: a maior parte do conhecimento está concentrada no entorno das grandes universidades públicas — como UEM, UEL, UFPR e Unicentro.
“Os estudos acabam ficando concentrados próximos aos grandes centros de pesquisa. Isso demonstra a relevância das universidades, mas também revela dificuldades para expandir as pesquisas para áreas mais distantes, principalmente pela falta de recursos financeiros”, aponta Nádia Sabchuk.
O caso mais emblemático desse “vazio de dados” é o Parque Nacional do Iguaçu. Apesar de ser uma das unidades de conservação mais importantes do Brasil, a região carece de inventários profundos sobre a fauna de morcegos. A falta de registros, reforçam os cientistas, não significa ausência de animais, mas sim a urgência de investimentos em expedições de campo.
Alerta Vermelho: Espécies Sumidas e a Pressão no Habitat
Outro dado que acendeu o sinal de alerta entre os especialistas foi o sumiço de oito espécies, que não foram capturadas ou registradas no Paraná nos últimos 15 anos.
Embora ainda não se possa decretar a extinção local desses animais, os biólogos associam o desaparecimento à degradação ambiental. Hoje, o Paraná conserva apenas cerca de 13% da cobertura original de Mata Atlântica. Como muitas espécies são altamente sensíveis a alterações no ecossistema, o próximo passo da pesquisa científica exige buscas direcionadas para entender a real situação desses mamíferos.
O Protagonismo de Maringá e Londrina
Historicamente impulsionadas pela tradição acadêmica da UEM e da UEL, as regiões de Maringá e Londrina concentram os maiores índices de biodiversidade registrada no estado. Apenas na região de Maringá, há o registro de mais de 40 espécies diferentes.
A maior parte desse patrimônio científico foi mapeada pelo Grupo de Estudos em Ecologia de Mamíferos e Educação Ambiental (Geemea) da UEM, coordenado pelo professor Henrique Ortêncio Filho, onde Sabchuk desenvolveu parte de suas pesquisas.
Papel Ecológico: Muito Além dos Mitos
Distantes do estigma de “vampiros” ou criaturas de terror, os morcegos são pilares do equilíbrio ecológico:
- Frugívoros (alimentam-se de frutos): Atuam como reflorestadores naturais, dispersando sementes em áreas degradadas.
- Insetívoros (alimentam-se de insetos): Fazem o controle biológico de pragas agrícolas e insetos urbanos.
A orientação para a população é direta: ao avistar um morcego, deve-se apenas observar à distância. O manejo desses animais só deve ser feito por profissionais treinados e equipados.
Educação nas Ruas: “Noite dos Morcegos”
Para romper o preconceito popular, a ciência paranaense aposta na extensão universitária. Um dos destaques é o projeto “Noite dos Morcegos”, realizado de forma fita no Parque do Ingá, em Maringá. A ação leva a biologia desses animais diretamente ao público, desmistificando medos ancestrais ao mostrar a anatomia e a importância real desses pequenos mamíferos para as cidades e florestas.
O estudo completo foi publicado no artigo científico “Bats of Paraná: Updated Checklist, Knowledge Gaps and Future Perspectives”, e propõe uma união de forças urgente entre universidades, órgãos de vigilância sanitária e centros de controle de zoonoses para garantir que as próximas gerações ainda encontrem o Paraná como um refúgio seguro para a espécie.