
Foto: Gezer Amorim/Pexels
A máxima de que “quanto mais verde, melhor” não se aplica perfeitamente quando o assunto é o bem-estar psicológico dos brasileiros. Uma pesquisa inovadora desenvolvida no Instituto de Biociências (IB) da USP revelou que os benefícios das áreas naturais para a mente dependem crucialmente de três fatores: segurança, biodiversidade e qualidade da infraestrutura urbana. Mais do que isso: o estudo provou que o gênero e o local de moradia (o “CEP”) alteram drasticamente a forma como nos conectamos com o meio ambiente.
O trabalho foi conduzido pela bióloga Karla Vieira Morato em sua tese de doutorado, intitulada Conexão entre natureza e saúde mental em paisagens urbanas e rurais: determinantes ambientais e sociais. A inspiração veio da própria vivência da pesquisadora, que trocou a calmaria rural de Ibirataia, na Bahia, pelo estresse da metrópole paulistana. O choque cultural e ambiental a impulsionou a investigar cientificamente essa relação, que resultou em um artigo publicado recentemente no renomado Journal of Environmental Psychology.
O paradoxo do campo e a desigualdade verde
Cruzando uma metanálise global com um questionário respondido por mais de 5 mil pessoas, o estudo trouxe surpresas. A primeira delas derruba o mito do campo: os moradores da zona rural não apresentaram, necessariamente, índices de saúde mental melhores do que a população urbana.
Segundo a pesquisa, isso ocorre porque, para quem vive no campo, a vegetação densa muitas vezes está associada à rotina exaustiva de trabalho. Para essas pessoas, o verdadeiro refúgio mental está nas chamadas “áreas azuis” — como rios e lagos. Enquanto a população urbana clama por segurança nas praças, os moradores rurais demandam infraestrutura de lazer, já que a falta de investimento transforma o verde ao redor em um cenário puramente laboral.
“São formas de ver, conviver e interagir com o verde diferentes”, explica Karla Morato.
O contexto urbano brasileiro também enfrenta barreiras severas de infraestrutura. Dados do IBGE citados no estudo apontam um cenário de exclusão: apenas 13,5% dos brasileiros vivem em ruas com três ou quatro árvores.
Como gênero e violência afetam a conexão mental
A pesquisa também jogou luz sobre como homens e mulheres interagem de formas distintas com os espaços naturais:
- Mulheres: O sentimento de conexão com a natureza está diretamente ligado à frequência (a regularidade com que conseguem frequentar esses locais).
- Homens: O benefício psicológico está mais associado à variedade dos ambientes naturais visitados, e não tanto à periodicidade.
A hipótese inicial de Morato era de que o medo da violência urbana afetaria mais a experiência feminina. Contudo, os dados revelaram que a insegurança é um fator limitante crucial para ambos os gêneros. No Brasil, o medo do crime impede que as pessoas usufruam de parques e praças, transformando o que deveria ser um agente de calmaria em um gatilho de estresse e ansiedade.
“As pessoas, às vezes, moram próximas a áreas verdes que não são bem cuidadas, não têm uma boa diversidade, não são seguras e acabam tendo estresse e ansiedade por medo de passar por essa região”, destaca a bióloga.
Diagnóstico sutil da mente
Para medir a saúde mental dos participantes sem induzir respostas, o estudo utilizou o Questionário de Saúde Geral de Goldberg (GHQ-12). Em vez de questionar diretamente se o voluntário sofria de ansiedade ou depressão, o teste aplicou abordagens cotidianas e indiretas, avaliando, por exemplo, a capacidade do indivíduo de tomar decisões difíceis no dia a dia.
Os resultados globais da revisão de literatura confirmaram que morar perto de mais vegetação melhora a saúde mental coletiva — mas apenas se houver acesso real e qualidade ecológica. Quanto mais rica for a biodiversidade e mais preservada for a vegetação, maior é o senso de conexão e restauração sentido pelas pessoas.
Soluções integradas para o futuro
Para Karla Morato, os achados deixam um recado claro para os gestores públicos: o planejamento urbano e as políticas ambientais precisam ir muito além do simples ato de plantar árvores.
Tratar a crise climática e a crise de saúde mental contemporânea exige criar espaços públicos que unam preservação ecológica, manutenção e, fundamentalmente, segurança pública. Só assim o “verde” deixará de ser um privilégio geográfico para se tornar, de fato, um promotor de saúde universal.