
Foto: Ricardo Stuckert / PR
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarca neste domingo para Évian-les-Bains, na França, para participar da Cúpula do G7. Embora o Brasil compareça como convidado oficial do bloco — que reúne sete das maiores potências industrializadas do planeta —, a 10ª participação de Lula no fórum será marcada por um cenário de forte tensionamento bilateral, impulsionado por barreiras comerciais e atritos diplomáticos com Washington e Bruxelas.
O Fator Trump: Tarifas de 25% e o ‘Efeito Pix’
O ponto mais crítico da agenda gira em torno de um possível encontro com o presidente dos EUA, Donald Trump. A relação entre as duas maiores economias das Américas azedou após o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sinalizar a intenção de taxar em 25% parte das importações brasileiras.
A justificativa de Washington gerou desconforto: o relatório norte-americano acusa o sistema de pagamentos Pix e o WhatsApp Pay de criarem uma concorrência desleal que prejudica gigantes financeiras dos EUA, como Visa e Mastercard.
Além da guerra comercial, o clima diplomático é nebuloso devido a uma decisão recente de Washington:
- Nova classificação de segurança: Os EUA designaram formalmente as facções brasileiras PCC e Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO).
- O temor do Brasil: O Itamaraty tentou bastidores para frear a medida, temendo que ela abra precedentes para sanções financeiras severas ao país ou até intervenções militares localizadas.
Até o momento, o Palácio do Planalto e o Ministério das Relações Exteriores (MRE) não confirmaram uma reunião bilateral entre Lula e Trump para destravar o impasse tarifário.
O Veto Europeu e o Balde de Água Fria no Mercosul
Se a relação com os EUA está em compasso de espera, o cenário com a União Europeia já é de crise aberta. Pouco após a entrada em vigor provisória do acordo comercial entre Mercosul e UE, o bloco europeu publicou o veto definitivo à importação de carnes, peixes, tripas e mel produzidos no Brasil. A proibição passa a valer em 3 de setembro.
O embaixador Philip Fox-Drummond Gough, secretário de Assuntos Econômicos do MRE, admitiu a surpresa do governo com o tom adotado pelos europeus:
“Nós estamos vendo algumas medidas da União Europeia que nos causam alguma preocupação. O tom da discussão (…) vai ser esse, com uma certa preocupação por esses últimos desdobramentos.”
Agenda Confirmada: Aliança Histórica com o Japão
Apesar dos nós diplomáticos com o Ocidente, o Brasil tem uma certeza estratégica na Ásia. Lula tem reunião bilateral confirmada com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi — a primeira mulher a chefiar o Executivo japonês. O objetivo central é dar o pontapé inicial nas negociações para um acordo comercial entre o Japão e o Mercosul.
O presidente brasileiro também deve se reunir reservadamente com o anfitrião do evento, o presidente francês Emmanuel Macron.
Os Três Atos de Lula no G7
A comitiva brasileira confirmou que o presidente discursará em três momentos principais durante a cúpula, entre os dias 16 e 17 de junho:
| Data | Evento / Painel | Foco do Discurso de Lula |
| 16 de Junho | Parcerias Internacionais para o Desenvolvimento | Cobrança pelo aumento da Assistência Oficial ao Desenvolvimento (AOD) pelas nações ricas. |
| 17 de Junho | Crescimento Econômico Equilibrado | Defesa da reforma da governança global (solicitando mudanças urgentes na ONU e na OMC). |
| 17 de Junho | Almoço Oficial do G7 | Debate estratégico sobre o avanço e a regulação da Inteligência Artificial (IA). |
A cúpula do G7 ocorre de 15 a 17 de junho e conta ainda com a presença de outros grandes emergentes convidados, como Índia, Coreia do Sul, Quênia e Egito.