
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
A rotina da auxiliar de serviços gerais Núbia Sales Veras, de 52 anos, resume o desafio diário de milhares de trabalhadores que habitam as periferias brasileiras. Moradora de Cidade Ocidental (GO), no Entorno do Distrito Federal, Núbia viaja cerca de 50 quilômetros todos os dias para trabalhar no Lago Sul, bairro nobre de Brasília.
Esse deslocamento, contudo, cobra um preço que vai além do cansaço físico. O custo diário de R$ 18 na passagem, somado à baixa qualidade e aos atrasos do sistema rodoviário, geram um impacto direto na sua qualidade de vida e no cuidado com a saúde. Núbia convive com a fibromialgia — uma síndrome crônica que causa dores severas pelo corpo — e relata dificuldades para manter o tratamento.
“Já perdi compromisso, já perdi consulta do meu tratamento no [hospital] Sarah, tudo por causa da demora do ônibus e do valor da passagem”, desabafa.
O relato de Núbia não é um caso isolado. Ele ilustra as conclusões do relatório técnico (policy paper) intitulado “Quem pode circular? Tarifa zero, mobilidade e desigualdades raciais no acesso à cidade e aos serviços”, desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB).
Os impactos da precariedade do transporte na saúde pública
De acordo com o estudo da UnB, os obstáculos do transporte público geram um efeito cascata que prejudica a continuidade de tratamentos médicos. Os principais problemas identificados são:
- Atraso em diagnósticos: A dificuldade de locomoção impede que exames preventivos sejam feitos no tempo adequado.
- Absenteísmo médico: Pacientes faltam frequentemente a consultas agendadas devido ao custo ou à imprevisibilidade dos horários dos ônibus.
- Sofrimento psíquico: O tempo excessivo gasto no trânsito, a superlotação e a insegurança atuam como agravantes para o estresse crônico, a exaustão, a ansiedade e a depressão.
Mesmo quem possui o direito à gratuidade enfrenta barreiras geográficas. A aposentada Helena Simão, de 72 anos, moradora de Samambaia (DF), sofre de osteoporose e não paga a passagem devido à sua idade. Ainda assim, a infraestrutura falha compromete suas consultas. “Eu já não pago o transporte, mas demora muito para passar e já perdi consulta médica”, afirma.
Recorte racial e geográfico das desigualdades
Os pesquisadores apontam que a precariedade da mobilidade urbana atinge de forma desproporcional a população negra. Por estar sobrerrepresentada nas faixas de menor renda e residir em territórios periféricos, essa parcela da sociedade é a que mais depende do transporte público.
Como reflexo dessa segregação espacial e econômica, o estudo cruza dados do DataSUS para evidenciar cenários críticos: mulheres negras enfrentam o dobro do risco de morte materna em comparação a mulheres brancas. O relatório associa essa disparidade diretamente às restrições de locomoção impostas pelo modelo atual de urbanização.
Tarifa Zero como política de saúde e economia
A pesquisa defende que a implantação da Tarifa Zero Universal — com a eliminação completa da cobrança de passagens — deve ser encarada como uma política de garantia de direitos fundamentais, assemelhando-se ao conceito do Sistema Único de Saúde (SUS).
Potencial de Impacto da Tarifa Zero nas Capitais
| Setor Impactado | Efeito Esperado |
| Saúde e Social | Garantia de acesso a exames, tratamentos e equipamentos culturais; redução das barreiras raciais e territoriais. |
| Economia | Injeção estimada de R$ 60,3 bilhões anuais na economia do país. |
| Transferência de Renda | Impacto distributivo comparável ao do programa Bolsa Família, liberando renda familiar para alimentação e educação. |
Para Paíque Duques Santarém, pesquisador da UnB e um dos autores do artigo, a desoneração integral do transporte tem a capacidade de reestruturar a dinâmica urbana.
“Tem potencial de transformar a relação da sociedade com uma política pública, tal qual o SUS propiciou, mas agora do ponto de vista do transporte”, conclui o pesquisador.