
Foto de Valter Campanato/Agência Brasil
Uma pesquisa inovadora liderada por cientistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP pode abrir caminhos para o primeiro tratamento acessível contra a degeneração macular relacionada à idade (DMRI) seca. O estudo, publicado no International Journal of Retina and Vitreous (do prestigiado grupo Nature), testou com sucesso a segurança do eculizumabe — um medicamento originalmente utilizado para tratar uma doença rara do sangue chamada hemoglobinúria paroxística noturna — diretamente nos olhos de pacientes com a condição.
A descoberta acende uma luz de esperança no Brasil, um país que atualmente não possui nenhum tratamento aprovado pela Anvisa para frear a evolução dessa doença, que afeta milhões de idosos.
O Desafio da DMRI Seca e a Barreira dos R$ 40 Mil
A DMRI seca é uma condição grave que destrói progressivamente o centro da retina. Em fases avançadas, ela evolui para a atrofia geográfica (AG), provocando pontos cegos, visão embaçada e perda da visão central. Embora existam duas drogas modernas aprovadas nos Estados Unidos (o pegcetacoplan e o avacincaptad pegol), elas não estão disponíveis no mercado brasileiro.
O custo da exclusão: Hoje, a única forma de acesso a esses remédios americanos é a importação direta. O custo estimado pode chegar a R$ 40 mil a cada dois meses caso o paciente precise tratar ambos os olhos — um valor completamente fora da realidade da maior parte da população.
A única alternativa atual em solo nacional é a LEDterapia (Valeda), um tratamento baseado em fotobiomodulação que, segundo especialistas, ainda carece de dados científicos robustos e divide a opinião de médicos devido a estudos metodologicamente controversos.
Como o Medicamento do Sangue Age no Olho?
Pode parecer estranho usar um remédio hematológico na oftalmologia, mas a ciência explica. Cientistas descobriram que a degeneração da mácula é intensificada por uma falha no sistema complemento (uma parte do nosso sistema de defesa imunológica que desencadeia inflamações). No olho com DMRI, esse sistema fica hiperativo no humor vítreo, atacando as próprias células da retina.
O eculizumabe entra em ação justamente como um “freio”:
- Ele é um anticorpo monoclonal que bloqueia a proteína C5.
- Ao se ligar a essa proteína, ele interrompe a cascata inflamatória local.
- O resultado esperado é a redução da morte celular, retardando drasticamente o avanço da cegueira.
O Estudo Clínico: Segurança Comprovada
Nesta primeira fase, o principal objetivo dos pesquisadores era avaliar se a aplicação intravítrea (injeção direto no olho) seria segura e livre de toxicidade. Dois voluntários que já haviam passado por cirurgia de catarata e apresentavam atrofia geográfica avançada receberam as doses no olho com pior visão e foram acompanhados por quatro meses.
Através de exames de imagem de alta tecnologia, como a tomografia de coerência óptica (OCT) e a angio-OCT, os resultados foram extremamente animadores:
- Ausência de efeitos colaterais: Não houve qualquer sinal de inflamação ocular, rejeição ou toxicidade.
- Estabilidade da visão: A acuidade visual dos pacientes não sofreu redução durante o período.
- Retina protegida: A área de atrofia permaneceu estável e não houve surgimento de fluidos ou lesões agudas nos vasos sanguíneos da retina.
“Dois casos é um número muito pequeno para fazer comparações, mas o que queremos reforçar é que, num primeiro momento, o tratamento foi muito seguro”, explica o professor Rodrigo Jorge, coordenador dos setores de Retina e Vítreo do Hospital das Clínicas da FMRP. “Se isso funcionar, nós vamos viabilizar um importante tratamento no SUS.”
Próximos Passos e Cronograma
O otimismo com os resultados iniciais deu tração para que a pesquisa avance para etapas mais robustas. A equipe da USP já projeta os próximos passos:
- Expansão do grupo: O estudo agora avança para tratar 10 pacientes.
- Fase 1 concluída: Os resultados consolidados desta etapa de segurança devem ser publicados no início de 2027.
- Rumo à Fase 2: Com a segurança validada, os cientistas solicitarão autorização para iniciar os testes de eficácia, comparando o medicamento com um grupo de controle (placebo).
Se o eculizumabe confirmar sua eficácia nos próximos anos, o Brasil poderá estar diante de uma revolução na saúde pública ocular, transformando um medicamento de alto custo em uma terapia capilarizada e acessível para os milhões de pacientes que dependem do SUS.