
Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram que o treinamento físico aeróbio pode ajudar a preservar a massa muscular e retardar o crescimento de tumores em casos de caquexia associada ao câncer. Os resultados indicam que esses benefícios dependem da atuação de uma enzima específica, a Heme oxigenase-1 (HO-1), ligada à proteção antioxidante e ao controle da inflamação.
A descoberta foi realizada durante pesquisa de doutorado da cientista Ailma Oliveira da Paixão, desenvolvida na Escola de Educação Física e Esporte da USP (EEFE) sob orientação da professora Patrícia Chakur Brum. O trabalho investigou os mecanismos pelos quais o exercício físico influencia a progressão da caquexia, síndrome caracterizada pela perda acelerada de massa muscular, inflamação sistêmica e piora do estado clínico de pacientes com câncer.
Diferentemente da desnutrição convencional, a caquexia provoca resistência anabólica, dificultando que o organismo utilize adequadamente os nutrientes para reconstruir tecidos musculares. Nesse contexto, o treinamento físico surge como uma ferramenta complementar importante, capaz de estimular processos biológicos relacionados à manutenção da musculatura.
Os experimentos foram realizados em camundongos submetidos a um protocolo de treinamento aeróbio composto por sessões de 60 minutos, cinco vezes por semana. Parte dos animais treinou durante quatro semanas antes da indução tumoral e continuou os exercícios por mais 14 dias após a inoculação das células cancerígenas.
Os resultados mostraram que os animais que realizaram atividade física apresentaram menor atrofia muscular e crescimento tumoral reduzido em comparação aos grupos sedentários. No entanto, quando os pesquisadores inativaram geneticamente a enzima HO-1 no músculo esquelético, os efeitos positivos do treinamento desapareceram.
A segunda etapa do estudo foi conduzida no Beth Israel Deaconess Medical Center, vinculado à Harvard Medical School. Nessa fase, foram utilizados modelos animais com ausência da HO-1 apenas no músculo esquelético e também em todo o organismo. A análise confirmou que a enzima desempenha papel fundamental na resposta ao exercício físico.
Segundo os pesquisadores, a presença da HO-1 permitiu que o treinamento modulasse mecanismos relacionados ao estresse oxidativo e à preservação da massa muscular. Já nos animais sem a enzima, o exercício não foi suficiente para impedir a progressão da atrofia.
Além dos efeitos sobre o tecido muscular, a pesquisa levantou a hipótese de que exista uma comunicação biológica entre músculo e tumor mediada pela HO-1. Os dados indicam que sinais produzidos pelo músculo treinado podem contribuir para limitar o avanço da doença.
Embora os resultados ainda estejam restritos a modelos experimentais, os cientistas avaliam que a descoberta reforça o potencial do treinamento aeróbio como estratégia complementar no tratamento da caquexia do câncer. A compreensão desses mecanismos poderá auxiliar no desenvolvimento de futuras abordagens terapêuticas voltadas à preservação da massa muscular e ao controle da progressão tumoral.
A tese intitulada “Influência do treinamento físico aeróbio sobre a Heme oxigenase-1 no controle da massa muscular esquelética e crescimento tumoral em modelo experimental de caquexia do câncer” está disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP. Todas as etapas da pesquisa foram realizadas de acordo com os protocolos éticos para experimentação animal.