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De Antidepressivo a Antifúngico: Como a Sertralina Pode Combater Superfungos Resistentes

Foto: Shawn Lockhart via Wikimedia Commons / Domínio público

Pesquisa brasileira da USP revela que um dos psicotrópicos mais prescritos do mundo consegue “asfixiar” e desestruturar o metabolismo de fungos causadores de infecções graves.

As infecções causadas por fungos resistentes são uma das ameaças silenciosas mais preocupantes da medicina moderna. Enquanto a ciência corre contra o tempo para desenvolver novas moléculas do zero — um processo que pode levar décadas e custar bilhões —, pesquisadores brasileiros decidiram olhar para o que já está nas prateleiras das farmácias.

Uma investigação conduzida no Departamento de Genética da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP revelou que a sertralina, um antidepressivo amplamente utilizado no tratamento de ansiedade e depressão, possui uma potente e inesperada ação antifúngica.

O estudo, publicado na revista científica Genetics and Molecular Biology, mostra que o medicamento é capaz de desestabilizar e inviabilizar a sobrevivência de patógenos severos, abrindo caminho para uma estratégia conhecida como reposicionamento de fármacos (drug repurposing).

O Atalho do Reposicionamento: Por que a Sertralina?

O interesse em testar a sertralina contra microrganismos não surgiu do nada. Observações clínicas anteriores já apontavam que pacientes em tratamento psiquiátrico com a substância apresentavam uma redução notável em episódios recorrentes de candidíase.

A partir dessa pista, os cientistas decidiram testar o comportamento do fármaco contra um painel de fungos perigosos, incluindo:

  • Candida albicans e a temida Candida auris (conhecida por sua alta resistência hospitalar);
  • Cryptococcus neoformans (causador de meningite fúngica);
  • Aspergillus fumigatus (que ataca os pulmões);
  • Trichophyton rubrum (responsável por micoses de pele e unha bastante persistentes).

A grande vantagem de reaproveitar um medicamento existente é a velocidade. Como a sertralina já passou por todas as fases rigorosas de testes de toxicidade, segurança e farmacocinética em humanos, o caminho até a aprovação para um novo uso clínico é drasticamente reduzido.

O Efeito “Pane no Sistema”

Ao contrário dos antifúngicos tradicionais, que costumam atacar apenas um ponto específico do fungo (permitindo que o organismo aprenda a desviar do ataque e crie resistência), a sertralina age como um verdadeiro “apagão” sistêmico.

“É como se, em vez de desligar apenas uma máquina de uma fábrica, o medicamento interrompesse simultaneamente vários setores essenciais do funcionamento dela.” — Analogia dos pesquisadores da FMRP-USP

Utilizando a tecnologia de sequenciamento de RNA (RNA-seq), o grupo liderado pela professora Nilce M. Martinez-Rossi e pelo pesquisador principal Antônio Rossi Filho mapeou a resposta genética dos fungos. Eles descobriram que a sertralina sabota o inimigo em várias frentes ao mesmo tempo:

  • Bloqueio de Proteínas: Interfere diretamente nos ribossomos, impedindo o fungo de traduzir genes e fabricar proteínas vitais para crescer e se multiplicar.
  • Crise Energética: Desregula a produção de energia e o metabolismo de gorduras e açúcares.
  • Destruição de Barreiras: Compromete a integridade das membranas celulares fúngicas.
  • Inibição de Biofilmes: Dificulta a formação de colônias protegidas (biofilmes), que costumam blindar os fungos contra medicamentos comuns.

Estresse Oxidativo: O Fungo Levado ao Limite

A pesquisa liderada pela pós-doutoranda Mayara Itala Geronimo de Azevedo demonstrou que a presença da sertralina gera um estresse severo nas células fúngicas, provocando o acúmulo descontrolado de espécies reativas de oxigênio (ROS) — os radicais livres.

Em um primeiro momento, os fungos tentam sobreviver ativando mecanismos de defesa e autofagia (uma espécie de reciclagem celular para reaproveitar partes danificadas). Porém, sob a pressão constante do medicamento, essa tentativa de reorganização metabólica falha. O fungo simplesmente não resiste ao desgaste celular acumulado.

O Futuro do Tratamento: O que Vem pela Frente?

Embora os resultados sejam extremamente promissores, os pesquisadores alertam que ninguém deve utilizar o antidepressivo por conta própria para tratar infecções fúngicas.

O foco agora está em viabilizar o uso prático dessa descoberta. Os caminhos mais prováveis para o futuro incluem:

  1. Terapias Combinadas: Associar a sertralina a antifúngicos tradicionais para criar um “efeito sinérgico”, onde um potencializa a ação do outro, permitindo doses menores e mais eficazes.
  2. Formulações Tópicas: Desenvolver cremes, pomadas ou esmaltes (no caso de micose de unha) para aplicar o medicamento diretamente no local da infecção, minimizando efeitos colaterais sistêmicos.

A descoberta reforça como a ciência de ponta e a criatividade científica podem transformar medicamentos comuns em armas valiosas contra as ameaças de saúde global.

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